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14.5.14

dilaceramento

no centro do vulcão
um peito escorre em lava.

lava-me os olhos,
pedra derretida.

leva-me o corpo,
carne explosiva.

deixa-me os cacos,
faz-se partida.

13.5.14

aprisionadamente

o pensamento
me escapa os limites.

sou toda mente.

é tanto pesar
ao pensar
que viver me parece
muito mais
um exercício de
nada mais
que somente
imaginar.

29.4.13

meu primeiro e lindo livro

não sei dizer se demorou mesmo, ou se é assim que as coisas são quando leva-se em consideração a tal da "hora certa". o fato é que, anos, pensamentos positivos, negativos, poesia, poética, tristezas, felicidades e algum dinheiro depois, enfim, meu primeiro livro saiu!
para quem estará em são paulo no dia 08 de maio, quarta-feira, a partir das 19h vou estar lindamente lançando o livro "Parte Eu Parte Outro", pela Dobra Editorial, lá no Canto Madalena. O livro está lindo, a felicidade anda maravilhosa, e você deveria vir dividir um pouco dessa imensa alegria comigo!


26.3.12

onde não há aqui

o calendário pendurado na parede anunciava a chegada da semana santa, mas não se via sinal de ressurreição em lugar algum. homens e mulheres crucificados tomavam conta de sua visão turva, já desgastada pelo sol e pelo tempo, e a aridez de mais uma seca havia tomado não só suas terras e esperanças, mas invadira também o seu coração.
- todo ano é a mesma coisa.
- e nós devemos continuar esperando sempre o mesmo?
- não devemos, mas não temos escolha.
- mas a esperança não tem a ver com esperar algo melhor?
- a esperança nunca chegou até aqui.
de olhos fechados na rede velha e empoeirada, amarela como todo o cenário dentro e fora da janela, só podia pensar em uma única palavra: devastação. estava tudo devastado mais uma vez. só a apatia sobrevivia, ano após ano.
batendo seu pé na parede de barro, quente do sol, sentia uma leve brisa da rede balançando de um lado para o outro, enquanto alimentava a única espera - e não esperança - dentro de si: a espera pela morte breve, pelo alívio que só a morte traria. abriu seus olhos e encarou o calendário do ano de 2012 da parede. estaria mesmo em 2012, ou até o tempo havia esquecido daquele lugar?
- a ressurreição só existe em um calendário inventado. nem mesmo jesus lembraria desse pedaço esquecido de terra, e eu, já nem sei mais onde estou.

24.12.11

novamente na maquete

faz-se cheia
a lua nova
sacode
quem é de terra
envolve
quem é de saudade
permeia
a alma e me leva

pra longe
longe
longe

9.8.11

Todo fim tem um começo

Era simplesmente insuportável o jeito como ela vinha agindo ultimamente. "Filha duma puta", ele pensava. Levantou a sobrancelha direita, contraiu os lábios, suspirou profundamente e voltou para aquele relatório interminável, que se tornava mais interminável a cada vez que ele repetia os mesmos movimentos de, como ele mesmo nomeara, 'superação mental'.
- Não dá mais, é o fim! -, falou, entre uma fórmula e outra do Excel.
- Acabou aí? -, perguntou o colega sentado na bainha 4, três ao lado na fileira de frente pra ele.
- Não e não vou acabar hoje! Vou resolver umas coisas aí! -, e puxou a bolsa-carteiro (uma de suas preciosidades) daquele espaço minúsculo, atirando para longe teclado, mouse e porta-lápis. Abaixou para pegar puto, mas imediatamente agradeceu quando percebeu que a caixa de clips continuava intacta, em cima da mesa.
Jogou tudo de qualquer jeito de volta no lugar e saiu.
No elevador, a mesma coisa de sempre: pessoas entrando e saindo, em silêncio absoluto, e quem ficava olhava fixamente para aquela tevê que, segundo ele, era uma das grandes invenções do ser humano: a tevê de elevador, salvação para a antiga interação obrigatória.
Desceu e, caminhando lentamente em direção ao seu carro, arquitetou minuciosamente seus próximos movimentos. "Eu vou olhar bem nos olhos dela, pra matar a desgraçada de culpa, e dizer que ela nunca mais vai encontrar alguém que goste tanto dela", pensou enquanto enfiava a mão no bolso direito da calça, sem encontrar nada. "Ela vai se arrepender de ter me ignorado assim", e passava os dedos pela costura de dentro do bolso, já sentindo o calor da raiva no rosto. "Eu quero ver ela ajoelhando na minha frente, pedindo perdão pelo amor de deus", e mais uma vez revirou os bolsos.
- CA-RA-LHO-DE-CHA-VE!!!, gritou enquanto socava o vidro do próprio carro, e sentiu as pernas amolecerem até perceber que não, não havia quebrado o vidro, ele estava intacto. De novo e mais uma vez puxou o máximo de ar que podia para dentro dos pulmões e deu meia volta, de volta ao elevador.
Apertou o botão e quinze horas se passaram entre o painel luminoso acima da porta retangular mostrar '17' e 'T'. Entrou e as mesmas notícias pareceram se repetir oito vezes naquela telinha plana. E assim o caminho havia sido todo repetido ao contrário: elevador, corredor, porta, "essa secretária velha e mal comida que me olha como se eu fosse um pedaço de carne barata", um labirinto de baias injustamente chamadas de mesas, e finalmente, mas nem por isso felizmente, seu cubículo.
"Cadê a porra da chave?", pensou quando olhou para a mesa e se lembrou da tragédia que havia acontecido poucos minutos antes: um grande emaranhado de fios, teclado, mouse... "Superação mental, superação mental" era o que se passava em sua cabeça enquanto se abaixava para fazer uma busca sob as mesas, pernas e fios. Três pessoas já engatinhavam pelo escritório, mobilizados pela altura com que bufava em busca daquele pequeno molho de chaves, quando o mesmo colega intrometido da baia 4 perguntou:
- Que foi, perdeu alguma coisa?
- As minhas chaves, acho que caíram quando tudo da minha mesa caiu.
- Ah! Estão aqui ó -, e apontou para o seu próprio pé.
"Não acredito que só agora esse filho da puta..." - AH, QUE BOM!, e engatinhou até lá, pegou as chaves, levantando e levando um tanto da beirada da mesa com sua cabeça. "...", foi só o que pensou.
E mais uma vez, respirou fundo, levantou a sobrancelha direita, contraiu os lábios, e se foi, em busca de sua glória.

- PERAÍ! -, gritou o cara da baia 4, já na lista dos próximos assassinatos que ele poderia cometer. Ele simplesmente ignorou, e continuou o labirinto em direção a porta, completamente surdo.
- TÁ SURDO? O CLIENTE TÁ NO TELEFONE! -, enquanto absolutamente toda e qualquer pessoa daquele lugar já havia parado de trabalhar e olhava para sua cara. Mas não se rendeu, e continuou a caminhar cada vez mais rápido.
- ELE QUER FALAR COM VOCÊ! DISSE QUE SABE QUE VOCÊ ESTÁ AQUI!
-TAMBÉM PORRA, VOCÊ TÁ GRITANDO PRA CARALHO, É CLARO QUE ELE SABE QUE EU TÔ AQUI!!! -, explodiu, e puxou a ligação do telefone da mesa mais próxima com força.
- Alô? Oi, sou eu sim. Não, não tem nada acontecendo aqui. Não, não vou conseguir enviar o relatório hoje. Estou com uns problemas pessoais e não vou poder term... Não, não tem ninguém morrendo, mas mesmo a... Não é adiável, eu n... Não, minha mãe já morreu há muitos anos, eu nã... OK! Envio o relatório a noit... No final da tarde estará aí.
"PORRA", e nada mais no pensamento, enquanto caminhava vergonhosamente de volta ao seu cubículo.
"Preciso resolver isso hoje, de uma vez por todas. Aquela desgraçada não pode ter nem mais um segundo de sossego no coração, eu quero que ela implore pelo meu amor, e eu vou dizer não, não te quero mais, você não vale nada!", e completava automaticamente as lacunas daquela planilha com fórmulas absolutamente complicadas."Como assim ela nunca mais me liga? Depois de tudo que aconteceu? Depois de todas as nossas declarações? Quem ela pensa que é?", e tentava focar em linhas, colunas, números e na tela super-brilhante do computador velho que tinham lhe arranjado, enquanto o seu estava no conserto. "Eu não aguento mais, meus pensamentos vão me matar!" e puxava o mouse que tinha o fio enrolado no do teclado e mal se movia na mesa. "Vai ser por telefone mesmo", e sacou o celular da bolsa-carteiro (se orgulhava da compra a cada vez que precisava da bolsa), digitou o número e esperou.
Tuuuu... tuuuuu... "Desgraçadaaa, me atendeeee" Tuuuu... "Vou desligar, cacete, não atende, não atende..." Tuuuu... "Não-a-ten-deeee" Tuu... - Alô?
- É.. alê.. não, alôo..
- Quem é Alê?
- Não, ninguém, me confundi com o alô, tudo bem? Tá bem?
- Ah! Oi, tudo bem, e você?
- Eu tô bem... 
- ...
- ...
- ...
- É.. Ahn... Não, é que, é, ahn, você tá bem?
- TÔ!
- Já perguntei né.. É... Você vai fazer alguma coisa hoje?
- Hoje eu tenho yoga.
- Ahn... Ah, verdade... E amanhã?
- Amanhã não, porque?
- Por que você não me ligou mais?
- Porque você me ligou naquela noite completamente bêbado e disse pra eu nunca mais procurar você.
- Que noite?
- Sábado passado.
- SÉRIO?
- É claro que é sério!
- Nossa... Nossa... Me desculpa!
- Por que você me ligou?
- Quer sair amanhã?
- Não.
- Não?
- Quero.
- Então sete e meia eu passo aí pra te pegar.
- Tá bom.
- Ahn... Então... tchau.
- Tchau.

28.7.11

mais uma de desamor

- Ele andava meio estranho mesmo, já faz um tempo...
- Mas e aí, sumiu e ponto? Nunca mais voltou?
- É o que dizem. Parece que tava com coisa demais na cabeça, briga no escritório, a grana tava curta, e ele ficou meio doido da cabeça com aquele namoro novo dele.
- O pela internet?
- Ahan. Dizem que ele nunca tinha namorado, ele falava que nunca tinha gostado de nenhuma mulher, que mulher é muito cheia de coisa, sei lá.
- Mas e o namoro?
- Ah, acho que ela deu um pé nele.
- Pela internet também?
- Hahaha, acho que sim, né?
- E quem que vai entrar no lugar dele aqui?
- Ah, isso aí eu já não sei não, eu não sei nem muito bem o que ele fazia.
- Mas e aí, e o namoro, que mais cê sabe?
- Cara, eu sei que eles se conheceram na internet há uns meses, namoravam assim, e que eles tinham se encontrado algumas vezes, mas depois disso acho que não rolou mais nada.
- Mas é muito estranho ele ter sumido assim, sem deixar bilhete, recado, nem nada. Será que foi sequestro?
- Eu acho que não, porque os caras do bar ali de baixo disseram que ele passou lá essas noites atrás, com uma mochila enorme nas costas, pediu uma cachaça, virou de uma vez só e foi embora.
- Ele falou alguma coisa?
- O cara me contou que ele pediu a cachaça e disse que era pra se preparar pro que ele tinha pra falar.
- Meu deus, que mistério.
- Pois é...
...
Chegou na rodoviária às dez da noite, e o próximo ônibus saía às três e quarenta e cinco da manhã, mas é claro que não conseguia parar e dormir sentado, e nem tinha pensado nisso, pra dizer a verdade. Era a primeira vez que se apaixonava. Nunca havia se sentido tão estranho, achava incômodo, estranho, horrível, sentia que os olhos fechavam-se involuntariamente e tinha aquele ardor caloroso no peito toda hora, ele não conseguia nem ao menos tentar parar de pensar nela. Enquanto andava, ia criando histórias mentais dele ao lado dela e se arrepiava quando pensava no quanto se encaixavam perfeitamente.
Os diálogos que se passavam entre o cérebro e o pensamento dele culminavam em discussões, contradições e pontos de vistas diferentes tão eternos que ele desistia de tentar acompanhar, e acabava fadado a não conseguir pensar em mais nada além disso. Sentia o cheiro dela, inventado numa mistura de memória com ficção mental, e parecia derreter dentro de si mesmo. A única certeza que havia dentro daquele corpo permeado por obsessão era de que sem aquela mulher sua vida simplesmente não era.
...
- Então, ele veio ou não veio?
- Veio, você acredita?
- Mas você não disse pra ele não vir, filha?
- Disse, disse que já fazia tanto tempo que a gente tinha acabado tudo que não tinha porque ele vir até aqui pra me dizer o que ele queria me dizer.
- Você não foi clara com ele, devia ter dito que não queria que ele viesse e ponto.
- Ele disse que tinha uma coisa pra me falar, e que só falava se fosse pessoalmente.
- Mandasse ele falar por telefone mesmo e não vir aqui!
- Ah, ando tão carente que acabei não falando mais nada na hora. Acho que é bom saber que alguém gosta de você, que viaja horas e horas só pra te dizer alguma coisa.
- E ele disse, afinal?
- Disse.
- E?
- Ele disse que não podia viver se não fosse junto comigo.
- E?
- E só.
- E o que que você disse?
- Que ele não precisava ter vindo até aqui pra falar isso, que eu não podia viver junto com ele porque eu não gosto dele, e que ele ia ter que ir embora.
- Aí ele foi embora e por isso você está com toda essa desanimação?
- Ah, não. Mas, sei lá, eu sabia que ele ia falar alguma coisa do tipo, mas do jeito que ele disse isso, parecia ser de verdade, sabe?
- É claro que é de verdade, ele veio até aqui só pra falar isso!
- É, né?
- É, menina, esquece isso e vamos pegar mais uma bebida...