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14.5.14

dilaceramento

no centro do vulcão
um peito escorre em lava.

lava-me os olhos,
pedra derretida.

leva-me o corpo,
carne explosiva.

deixa-me os cacos,
faz-se partida.

30.9.13

bipolar de mim

se o abismo de dentro
se enche de mais profundidade,

se meus monstros abissais
se libertam em busca da superfície,

é hora de vestir meu escafandro,
e explorar o íntimo de minhas águas cheias de sal.

porque, se a profundidade anda a me sufocar,
é hora de me afundar mais uma vez,
e quem sabe atingir,
(já que não posso fingir)
entre monstros, lama e medo,
o outro lado de mim mesma.


12.7.12

la niña y la luna

ela
de cara comigo:
cabelos curtos,
charmosa,
os olhos pintados,
os cílios enormes,
e a boca
carmim,
meio que borrada,
meio que usada.

tentei perguntar, pensar,
compreender telepaticamente,
porque me olhava assim,
tão profunda e descarada.

porque ferve o meu sangue
- gritei para o céu -
e entope a minha alma,
estapeia a minha cara?

respondendo aos meus pedidos,
um sussurro conhecido
bem ao pé do meu ouvido:
- ironia do destino
mais absolutamente nada.

5.6.12

consolação

a chuva desabou do céu, não menos que de repente, para a surpresa de todos. a água escorria para dentro do ônibus por baixo do rodapé da porta, culpa de uma típica preguiça de engenharia pública neste país, e inundava meu pensamento por completo. observava a dança da água no chão quando percebi que, em um daqueles momentos raros de encaixe do universo na própria existência, não é sempre que estou de mau humor.

24.5.12

modo submarino


aqui estou eu, de novo, submersa, perguntando a mim mesma se todo mundo se afoga de vez em quando, talvez de quando em quando. eu não consigo saber, porque eu meio que estou sempre um tanto quanto submersa. talvez eu seja um submarino sem a carcaça vedada, e eu não consigo enxergar com toda essa água nos meus olhos. você consegue ver com água nos olhos?
aqui estou eu, de novo, tentando tirar toda essa água do meu corpo e colocando tudo isso sobre os ombros das palavras. se eu pudesse ser qualquer outra coisa, eu nunca seria uma palavra. e não posso nem ao menos pedir desculpas sem transformar todo o meu próprio universo em palavras.
mas isso não importa, de qualquer forma. eu não consigo ver alguma coisa, ou uma palavra, com toda essa água nos meus olhos. você consegue?

1.2.12

sob a onda da tristeza avistei o sol

cheguei ao fim da ladeira, de baixo para cima, e logo vi: ele de cara fechada, ela de costas para mim, um em direção ao outro. minha cabeça estava tão longe de onde eu estava que considero um golpe de sorte ter presenciado aquele encontro. os corpos dos dois se aproximaram, sem qualquer significação, e foi pensando nas angústias da minha alma que fixei os olhos naquela direção e me enchi de alguma emoção qualquer, bonita, confusa e um tanto invejosa: os ombros dos dois se tocaram e os seus rostos se viraram, se encararam. e sorriram, os dois, um para o outro. e pararam de caminhar, se olhando, simplesmente se olhando. ninguém poderia esperar nada daquele momento tão insignificante para o resto do mundo, mas por aquele sorriso, por aqueles olhos, tenho certeza que, ao menos para ele, todos os outros significados não importaram, e naquele momento, enquanto ninguém esperava nada, um mundo de expectativas passaram diante daqueles olhos, daqueles brilhantes e profundos olhos.

19.12.11

tarde de domingo

multicores que flutuam
enfeitam o céu
se passam por estrelas
se disfarçam de lua

passeiam
por entre as nuvens
por entre o amor
por entre os dedos
redondas e nuas

giram e voam
rolam e invadem
a casa
os prédios
o peito

e ascendem aos olhos
ao além
fazendo de uma
simples tarde de domingo

de amor e beleza
o tempo perfeito