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1.9.15

je ne suis pas une stooge

tenho sentido
- coração ainda
um tanto ressentido -
o infinito do meu ser
deliciosamente comprimido,
perfeitamente espremido,
neste pedaço de espaço
cosmologicamente
a mim escolhido.

tenho enfim,
- mas não tão
simples
assim -
o alívio
de caber
bem aqui
dentro de mim.

eu sou meu meio,
sou meu começo
e também meu próprio fim.

30.12.14

stardust de mim

no fundo de tudo,
no fim do poço,
só enxerga
quem ergue os olhos.

olhei e me vi,
ocupada pelo outro.
mas eu sou minha.

não quero mais partes,
sou minha.
território inexplorado,
espaço infinito,
tempo indefinido.

e meu.

fiz de mim meu território.
sou poeira de estrela,
espaço definido
de tempo infinito.

sou tudo que tenho,
e tudo que desejo ter.

11.3.14

mergulhar não é preciso

soltar para aprender,
desapreender,
ultrapassar a margem:
você é seu rio.

ninguém se afoga
nas águas de um mapa,
nem deixa de morrer
por um abraço.


18.4.13

XXV. seria eu findável?

observo a terra à vista.
tão extensa, excitante,
permissiva e apavorante,
como nunca aparentou
nesse ainda antes
de vinte e cinco.

já não me sinto infinita
como há meia ou uma década.

afinal, cá sou eu.
um ser à beira (e) limitado
por uma série de dermes,
entranhas, cravos e vermes,
vivendo dentro deste
pequeno espaço
de corpo.

portanto, se para ser
findável ou finita
é preciso estar sempre,
sempre, sempre,
vivendo no limite
(de si mesmo),
cá estou

descobrindo em
ciclos humanos
o mesmo limite:

existir é,
numa análise bem
simplista,
ocupar este espaço
(pedaço de carne ou
morada do espírito,
quem sabe),
enquanto o fôlego durar.

(somos todos infinitamente findáveis)

22.11.12

adeus tudo

adeus vida,
adeus mundo.

se me chamasse
raimundo
ou quem sabe maria
tanto faz
quanto tanto faria:

dizem que tudo
vai pelos ares
em menos de
trinta dias.

mas o que importa
se acaba ou fica
esta vida toda torta?

afinal, tanto faz.
os próximos dias,
entre a merda
e a alegria,
serão todos iguais:

morrendo um pouco
a cada dia,
querendo todo dia
um pouco mais.

26.3.12

onde não há aqui

o calendário pendurado na parede anunciava a chegada da semana santa, mas não se via sinal de ressurreição em lugar algum. homens e mulheres crucificados tomavam conta de sua visão turva, já desgastada pelo sol e pelo tempo, e a aridez de mais uma seca havia tomado não só suas terras e esperanças, mas invadira também o seu coração.
- todo ano é a mesma coisa.
- e nós devemos continuar esperando sempre o mesmo?
- não devemos, mas não temos escolha.
- mas a esperança não tem a ver com esperar algo melhor?
- a esperança nunca chegou até aqui.
de olhos fechados na rede velha e empoeirada, amarela como todo o cenário dentro e fora da janela, só podia pensar em uma única palavra: devastação. estava tudo devastado mais uma vez. só a apatia sobrevivia, ano após ano.
batendo seu pé na parede de barro, quente do sol, sentia uma leve brisa da rede balançando de um lado para o outro, enquanto alimentava a única espera - e não esperança - dentro de si: a espera pela morte breve, pelo alívio que só a morte traria. abriu seus olhos e encarou o calendário do ano de 2012 da parede. estaria mesmo em 2012, ou até o tempo havia esquecido daquele lugar?
- a ressurreição só existe em um calendário inventado. nem mesmo jesus lembraria desse pedaço esquecido de terra, e eu, já nem sei mais onde estou.

19.3.12

canção culpada

diz-se certo por não duvidar de si mesmo,
ou vívido, por noites em claro
na solidão da própria loucura.

quanta vividez há, afinal,
em um corpo que só emite,
não transmite ou recebe
qualquer coisa alguma?

se a culpa é toda do outro,
só uma certeza reside
no corpo que sem a alma
afunda em profunda amargura.

o certo é que essa certeza,
somada ao excesso do eu-mesmo,
é a do vazio que ocupa o espaço
da falta da própria culpa.

28.12.11

emergência

são tantas
desconclusões
nesses tais
de fins de ano

que o céu
se enche
de água

para acalmar
a multidão
de espíritos

esbaforidos
e
esperansiosos
pela mesma
coisa

de novo

27.9.09

o tempo entre os braços e o espaço... ah, o espaço....